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quinta-feira, 29 de abril de 2010

O gigolô das palavras

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

Luiz Fernando Veríssimo, do livro O gigolô das palavras (Crônicas selecionadas e comentadas por Maria da Glória Bordidni, 1982)

terça-feira, 24 de março de 2009

Os pleonasmos que não são



"Isolado em Ilha..."

Este foi o título da coluna do professor Pasquale Cipro Neto, em 13-03-2008 no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Sim, faz mais de um ano!
Algumas das colunas do professor vieram parar na minha mão dia desses, e tive vontade de retomar esse meu blog, atualizando-o com alguns comentários sobre os comentários dele.

Num título publicado na Folha daquela semana, lia-se Home Sapiens isolado em ilha diminuem de tamanho, ao que os leitores o questionaram se ali não havia um pleonasmo. Realmente, ele lembra em seu artigo que ilha e isolado provém do mesmo termo latino insula. E comenta que, se formos analisar a nossa língua descobriríamos que muitos termos e expressões vêm de pleonasmos que usamos sem nem termos consciência.

Exemplifica outro "pleonasmo" com a expressão abismo sem fundo. Abismo, palavra de origem grega, significa literalmente sem fundo. Isso nos mostra que temos usado muitos pleonasmos que não o são mais.

Cita ele, ainda, que o pronome "comigo" (do português arcaico) é a junção da preposição com + migo que vem do latim mecum que, por sua vez vem de me + cum, e este último, também por sua vez equivele a com. Ufa! Quem diria?! Voltamos à preposição!

E nós, todos preocupados com os pleonasmos, nem imaginamos que estamos usando muitos deles mas que, "o uso e o tempo" acabaram por modificar sua semântica. Nada mais natural, a língua é viva e está em constante mutação.
Esses comentários todos me fizeram lembrar que, quando eu ensino aos meus alunos que a função do adjunto adnominal é determinar ou caracterizar o substantivo (nome), acabo por dar a dica de que ad vem do latim, e que significa junto, portanto, para que guardem bem, é o termo que vem junto do nome. E haja junto junto desse nome: adjunto adnominal (ad + junto + ad + nominal). Nossa!

E não é que eu posso aproveitar a aula e já relembrar o que é um pleonasmo? Claro!

Por fim, fico aqui a imaginar que algumas coisas que ouço esses jovens dizerem como: "Eu to saindo fora, cara!", podem daqui a muitos e muitos anos estar sendo usados como algo correto e normal. Talvez nem muitos anos assim... Curioso, não é mesmo?! Pois é...

E para mim, isso é que faz a nossa língua ser assim: interessante... e bela!


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Aqui deixo o contato...
Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, Professor Pasquale Cipro Neto, inculta@uol.com.br

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