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domingo, 22 de maio de 2011

Canção do dia de sempre



Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana

sexta-feira, 11 de março de 2011

Sonhei ter sonhado



Tema e variações

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
o de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

Manuel Bandeira

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Palco de meu tempo


Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

domingo, 1 de novembro de 2009

Sem limites no tempo


Cântico

Não sejas o de hoje
Não suspires por ontens
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

Cecília Meireles

terça-feira, 24 de março de 2009

Os pleonasmos que não são



"Isolado em Ilha..."

Este foi o título da coluna do professor Pasquale Cipro Neto, em 13-03-2008 no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Sim, faz mais de um ano!
Algumas das colunas do professor vieram parar na minha mão dia desses, e tive vontade de retomar esse meu blog, atualizando-o com alguns comentários sobre os comentários dele.

Num título publicado na Folha daquela semana, lia-se Home Sapiens isolado em ilha diminuem de tamanho, ao que os leitores o questionaram se ali não havia um pleonasmo. Realmente, ele lembra em seu artigo que ilha e isolado provém do mesmo termo latino insula. E comenta que, se formos analisar a nossa língua descobriríamos que muitos termos e expressões vêm de pleonasmos que usamos sem nem termos consciência.

Exemplifica outro "pleonasmo" com a expressão abismo sem fundo. Abismo, palavra de origem grega, significa literalmente sem fundo. Isso nos mostra que temos usado muitos pleonasmos que não o são mais.

Cita ele, ainda, que o pronome "comigo" (do português arcaico) é a junção da preposição com + migo que vem do latim mecum que, por sua vez vem de me + cum, e este último, também por sua vez equivele a com. Ufa! Quem diria?! Voltamos à preposição!

E nós, todos preocupados com os pleonasmos, nem imaginamos que estamos usando muitos deles mas que, "o uso e o tempo" acabaram por modificar sua semântica. Nada mais natural, a língua é viva e está em constante mutação.
Esses comentários todos me fizeram lembrar que, quando eu ensino aos meus alunos que a função do adjunto adnominal é determinar ou caracterizar o substantivo (nome), acabo por dar a dica de que ad vem do latim, e que significa junto, portanto, para que guardem bem, é o termo que vem junto do nome. E haja junto junto desse nome: adjunto adnominal (ad + junto + ad + nominal). Nossa!

E não é que eu posso aproveitar a aula e já relembrar o que é um pleonasmo? Claro!

Por fim, fico aqui a imaginar que algumas coisas que ouço esses jovens dizerem como: "Eu to saindo fora, cara!", podem daqui a muitos e muitos anos estar sendo usados como algo correto e normal. Talvez nem muitos anos assim... Curioso, não é mesmo?! Pois é...

E para mim, isso é que faz a nossa língua ser assim: interessante... e bela!


****

Aqui deixo o contato...
Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, Professor Pasquale Cipro Neto, inculta@uol.com.br

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