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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A palavra é uma roupa que a gente veste




A Palavra 

é uma roupa que a gente veste 
uns gostam de palavras curtas 
outros usam roupa em excesso 
existem os que jogam palavra fora 
pior são os que usam em desalinho 
cores brigando, substantivos em luta 
alguns usam palavras raras 
poucos ostentam palavras caras 
tem quem nunca troca 
tem quem usa a dos outros 
a maioria não sabe o que veste 
alguns sabem e fingem que não 
uns nunca usam a roupa certa pra ocasião 
tem os que se ajeitam bem com poucas peças 
outros se enrolam em um vocabulário de muitas 
eu adoro usar palavra limpa 
tem gente que estraga tudo que usa 
com quais palavras você se despe? 

 Viviane Mosé



sábado, 26 de fevereiro de 2011

Houve um poema


Houve um poema

Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
e intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A entrelinha


"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a o que salva então é escrever distraidamente."

Clarice Lispector, Água Viva

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma palavra morre



Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia

Emily Dickinson

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Nasci para escrever


Nasci para escrever. Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.

Clarice Lispector

terça-feira, 7 de julho de 2009

Procura da palavra


A procura da palavra

Não quero mais dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.

Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade



A palavra mágica

Certa palavra dorme na sobra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarde a encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
a minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 24 de abril de 2009

O bicho alfabeto


O bicho alfabeto
Tem vinte e três patas
Ou quase

Por onde ele passa
Nascem palavras e
Frases

Com frases
Se fazem asas
Palavras
O vento leve

O bicho alfabeto
Passa
Fica o que não se escreve


Paulo Leminski
(La vie en close, São Paulo, Brasiliense, 1991.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A palavra e o silêncio

O silêncio não é a negação da palavra, como a palavra não é tampouco a negação do silêncio. Há silêncios eloquentes, como palavras vãs. É, precisamente, a continuidade entre um estado e outro que forma a trama completa de nossa vida do espírito. É na riqueza do nosso silêncio interior que se forma a qualidade de nossas manifestações verbais. Como é na riqueza de sua repercussão no silêncio posterior que reside o sentido mais profundo no nosso privilégio verbal.
O homem é a única criatura que fala. Mas é também a única que sabe dar ao silêncio o seu sentido profundo. O silêncio dos seres humanos, das pedras, das florestas, dos animais, só tem sentido para nós, seres verbais, que damos um significado positivo, poético, filosófico, religioso a este silêncio das coisas e dos seres infra-humanos. Como o rumor de nossas palavras só tem sentido porque nelas se reflete o mundo infinito que está para lá de sua sonoridade, o mundo dos sentimentos, das idéias e das grandes realidades.

Tristão de Athayde

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